terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobre pneus, paixões e paixões por pneus

Conversámos à trois em uma mesa ensolarada de bar. O céu azul servia de suporte para a esfera amarelo-cerveja salpicar nossos olhos semi-cerrados enquanto discutíamos que tipo de pneu seria mais apropriado para andar na cidade, tendo em vista a diversidade e adversidade de terrenos que se encontra na urbe.

O cara-que-não-sabíamos-o-nome ia de 26 por 23, Jef de 26 MTB e eu defendia os benefícios do aro 700 com pneus azuis, enquanto o cara da mesa ao lado não entendia um caralho do que falávamos.

A conclusão era fácil, ninguém entende a paixão de um ciclista por uma magrela. Ninguém ali, além de nós e do cara-que-não-sabíamos-o-nome e andava com um pandeiro à tiracolo, entendia a importância crucial de um bom pneu e um quadro leve.

Assim são as paixões, concluímos, dispensando a marca alternativa de cerveja que o cara-que-não-sabíamos-o-nome e andava com um pandeiro à tiracolo nos oferecia - eu até te ajudaria nessa difícil missão de esvaziar a garrafa antes de o calor cobrá-la, mas, autonomista que sou, deixo a Bavária aos bávaros – ninguém sabe ao certo porque você se apaixonou ou mantém em chamas no seu coração determinadas coisas, e não vai ser por falta de apoio que ela se apagará, meu amigo. Para amar é preciso mais um, para se apaixonar, é preciso vontade.

Se você olhar ao redor, nessa imensa fila que se tornou nossa vida - onde esperamos um longo tempo por algo que sempre está atrasado - metade dos problemas surgem da falta de paixão por algo que te leve longe, ainda que seja uma paixão triste freudiana, no melhor estilo desencana-meu-amigo-ela-não-é-mulher-pra-você, logo você, amante dos hífens.

O conselheiro nunca entende a desilusão amorosa alheia. Ninguém aqui está falando – necessariamente - em voltar ao passado, em reconquistar o tesouro perdido. O prazer da paixão triste é sofrer de saudade, em sorrir de esperança e em chorar de decepção rodeado de amigos bêbados e/ou drogados, em situações nas quais você se pergunta se realmente está acontecendo ou você se confundiu e tomou o remédio para dormir antes do jantar.

O sonho do cara da mesa ao lado pode ser subir até o nono pela escadaria e o seu, subir o Nanga Parbat sem oxigênio, em um ataque só - foda-se o Campo Base, só os perdedores esperam dias bonitos para fazer coisas legais.

Não se mede o tamanho dos sonhos, todos são imensos. Não se raciona sobre paixões. Tem a ver com as vísceras e não com a cabeça.

Se o cara da mesa ao lado olha estranho porque não sabe levantar do selim no meio da montanha e lançar um fulminante ataque rumo à parada respiratória, que fique ele amarrado no cigarro, com os dedos amarelos e a bituca no chão (fumantes são invariavelmente porcos, foi uma conclusão de mais tarde). Nós que sonhamos e nos apaixonamos, nós vamos aléim, e vamos de bike.

Um comentário:

Jeferson disse...

MTB até a morte, carajo!
Acho que vou até tatuar isso.