quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sol no bambuzinho, doutor

É sempre a mesma rotina. Passar no banco sacar uma grana, buscar um atalho para chegar em um lugar que não sei exatamente onde fica. Vou sorrir para o porteiro, guardar a bicicleta aos fundos, em um agradável jardinete sempre vazio.

- Doutor, o Ricardo chegou. Só aguardar um momentinho

Eu me sento nas cadeiras Artesian assinadas. São lindas, mas desconfortáveis. No centro da mesa três enormes cubos em couro falso com textura crocodilo serve de suporte para todo o sem fim de revistas de médico. Caras de 1998, o casamento de Angélica e anúncios sobre o talher da próxima edição.

Mas aqui é diferente. Não se trata de contar as dores que afligem seu cotovelo direito. É um psiquiatra. Ninguém aqui dentro gostaria de dizer qual é seu problema. É como um pequeno segredinho.

Meu filho tem problemas de aprendizado e então o doutor enche ele de Risperidona. Isso ainda vai deixá-lo brocha, senhora. Mamãe cuidou de todos os quatorze filhos, apanhou do marido, teve dois derrames e agora está surtada. Stillnox makes grandma fells better. Cuidado com o Pato Donald, se ele também vier gritar palavras de ordem na orelha da vovó, diga que mandei lembranças e que aquele dia o problema era com o monitor.

Lá dentro o doutor me recepciona com uma calma invejável. Deve ouvir histórias de toda cepa de bizarrices. Eu entro e reparo que o bambuzinho d´água dele está amarelado pelo limbo que as pedras formaram e falta de sol direto. Faz um ano que nos conhecemos, eu nunca disse nada a respeito.

- Consumiu alguma substância, droga, álcool, teve alguma tensão psicológica ultimamente, Ricardo?


Qual é meu chapa, já faz um ano e vamos voltar com essa história? Eu sei que não deveria tomar isso, sim, sim, nem aquilo, foi só uma vez. Claro, eu estou meditando, me sinto mais calmo e não tomei nenhuma decisão precipitada.

Meu garoto! Toma cá suas receitas, me traz cá esses exames e keep breathing.

- Esse ano eu abandono essa montanha de comprimidos, doutor?

Qual é meu chapa, já faz um ano que você me fode com essa pergunta. Eu vou sempre dar a mesma resposta fugaz e você vais sempre voltar, porque prefere engolir esse supositório de PVC todo dia do que viver daquele jeito.

Eu desejo feliz 2011, comento sobre viajar, ele cita Delleuze. Eu me incomodo com o bambuzinho, titubeio e calo. Até o mês que vem.

Eu sempre volto. Por que? Qual é meu chapa, todo mundo tem seu segredinho mais pessoal.

2 comentários:

Denise disse...

O meu guarda as amostras de paroxetina e um banheirinho bizarro que eu só enxergo um pedaço. A porta sempre bate e parece que é para que eu não veja mesmo. Parece o portal para outra dimensão.
Mas, tudo bem. De 10mg fui pra 7,5mg e, logo, chega!
Já a análise...vai longe...

Nati disse...

Fico aqui imaginando o quanto o bambuzinho realmente te incomoda. Não, não é uma crítica.