terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Inter I

Termina a sina, começa a rotina.
Eu espero a lagarta verde sobre rodas se aproximar. Eu levo música nos ouvidos e uma revista enrolada na mão. R$2,20 é um puta roubo, catraco mais um número na roleta e escolho um bom assento solitário.
As pessoas sempre sentam nesse lado do ônibus, para não correrem o risco de compartiharem o jornal com alguém ou, deusolivre, ouvir histórias da vida de outrem.
Com a popularização dos MP34, iPods e celulares com foninhos nos tornaremos em breve uma nação de surdos por opção. Em breve lançarão cds com o canto dos pássaros, riso de crianças e barulho de cidade, para que não esqueçamos como era.
Ela também vem sentada sempre ali. Morena magrinha, com a pele do rosto sempre descascada, me lembra surfista de capa de caderno. Não há tempo hábil para uma abordagem de transporte público, ela desce quase onde eu subo.
O cobrador vê minha cara de decepção, ele entende que pra mim, começa onde para ela, termina. Aperta o sininho, irritante, agudo, ressoa no fundo da caixa craniana e me faz apertar os lábios de dorzinha. Desce.
Algumas coisas são assim, baby, vão ficando pelo caminho como os sonhos que trazemos enchendo os bolsos e acabam caindo desapercebidamente pela rua. Só não perca a chave de casa, uma hora vai querer voltar, podes crer, e aí é bom ter a porta aberta e alguém te esperando.


A revista perde a graça logo, dormir me faz bater com a cabeça no vidro, respiro profundamente e lá vem a minha vez.

Termina a rotina começa a sina.

Confiro os bolsos, meio vazios, mas tenho as chaves de casa.

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